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Demi-chan Wa Kataritai – A pedagogia da inclusão


Após realizar alguns textos sobre a temporada de inverno 2017, acabei por me lembrar de ter deixado de lado um dos lançamentos que mais me divertiram no começo do ano, que foi Demi-chan (aliás, a maior parte do destaque deste período foi para comédias...).
Da direita para a esquerda: Sakie, Himari, Takahashi,
Kusakabe, Hikari e Machi

Demi-chan Wa Kataritai (em inglês ficou Interview with Monster Girls) é um anime de comédia e slice-of-life, feito pela A-1 Pictures (olha ela aí mais uma vez...). Em um mundo onde a existência de seres que chamaríamos de “sobrenaturais” em nossa realidade, como vampiros, lobisomens, entre outros; um professor de biologia, Tetsuo Takahashi, que dá aulas para o ensino médio, está interessado em ter um maior contato com “demis” (forma como são chamadas estas “pessoas”), pois elas são o tema de sua tese de mestrado. Com uma inclusão cada vez maior de demis na sociedade, Tetsuo acaba encontrando as pessoas que precisava com o começo do ano letivo, ao conhecer três novas alunas: Hikari Takanashi, uma vampira; Kyouko Machi, uma dullahan; e Yuki Kusakabe, uma mulher da neve. Há ainda a entrada de uma nova professora de matemática, Sakie Satou, que é uma succubus (e também minha personagem favorita).

A alegre vampira, Hikari...

...a tímida e gentil dullahan, Machi...
Acompanhamos então a história das 4 demis na escola, formando um laço de amizade muito forte com o biólogo-professor. Descobrimos que nascer com estas características é algo muito único, como Machi que é apenas umas das 4 dullahans existentes no mundo. Mas também vemos o quão difícil acaba se tornando para estas pessoas, como a constante preocupação com o efeito afrodisíaco de Sakie, que acaba tendo que praticamente se isolar em sua casa, e pegar os horários de trem mais extremos possíveis, e ainda assim se concentrar para não atiçar a libido masculina ao redor. Ou mesmo o desafio que é para Machi carregar sua cabeça pra lá e pra cá, assim como a dificuldade de Kusakabe em líder com suas habilidades.

... a quieta e melancólica mulher da neve, Kusakabe...

...e a nossa atrapalhada súccubus, a professora Sakie.
Hikari demonstra ser uma exceção, sempre sorrindo e brincando com as garotas. Nos é revelado que a mesma não tem uma necessidade de ingestão obrigatória de sangue, sendo necessária apenas uma quantidade constante por semana. Porém, só foi possível a manutenção de seu bem-estar graças ao apoio de sua família. Seu pai, por exemplo, se tornou dono de casa, e até mesmo pintou o cabelo com uma cor mais clara apenas para que sua filha se sentisse em um ambiente mais familiar. Sua irmã, que nasceu sem algum tipo de vampirismo, teve seu nome dado para parecer com a outra, chamando-se Himari, que inclusive é como se fosse o oposto de Hikari, responsável, ranzinza, e extremamente preocupada com a irmã.
Em quase todos os episódios, vemos Tetsuo formulando hipóteses a respeito da origem das características desenvolvidas pelas garotas. Com Hikari, por exemplo, ele chega à conclusão de que a mesma possui sentidos muito mais aprimorados que humanos normais, o que explicaria sua sensibilidade ao sol e ao alho. Estes momentos garantem muitos alívios cômicos, como a explicação completamente absurda que um amigo de Takahashi, um físico, confere ao fato de Machi conseguir se alimentar mesmo tendo sua cabeça desconectada de seu pescoço (a menina tem um “buraco de minhoca” no que seria o pescoço...).

"Será que eu ainda tenho um efeito afrodisíaco?"
Tetsuo dando aquela disfarçada...

"Obrigado..."
Acho que ela teria um efeito afrodisíaco mesmo que
não fosse uma súccubus...
Minha intenção com este artigo, porém, não é apenas ressaltar as qualidades desta surpresa da temporada anterior, e muito menos fazer uma avaliação. Como um aluno de licenciatura, coincidentemente de Biologia também, assim como o Tetsuo, é interessante reparar em como o anime aborda a questão da inclusão na escola, assim como outros pequenos conflitos.
Ao vermos pessoas com características tão incríveis como as das 4 garotas, muitos podem se perguntar como alguém poderia discriminar uma pessoa que possui “habilidades” que crescemos lendo na literatura fantástica, ou mesmo nos filmes e na TV. Este mesmo questionamento é observável quanto as reações das pessoas ao ler as HQ’s de X-Men. A grande verdade é que este tipo de discriminação ao diferente é muito mais comum do que se pensa, ainda mais na escola.
Um grande pesquisador português, Antônio Nóvoa, que se dedica a estudar o ambiente escolar, em um de seus textos, descreveu a gênese da escola contemporânea, ou seja, todo o processo de mudança em relação as estruturas sociais dentro dos colégios, assim como os motivos para sua criação, entre outros. Uma reflexão dentre deste mesmo texto, é a de que a escola, quando foi criada na passagem da Idade Média para a Idade Moderna, surgiu como um espaço para a preparação do adolescente (um conceito que no período ainda era novo, por incrível que pareça), para a idade adulta. Isto requeria não só o ganho de conhecimento intelectual, mas, provavelmente com muito mais importância até, a adequação para com as relações interpessoais que existem na sociedade, as relações de poder, hierarquia e relacionados.
Assim sendo, a escola, desde seus primórdios até os dias de hoje, acaba sendo um espaço protegido do mundo adulto, na qual os estudantes acabam construindo um modelo de sociedade próprio, com o objetivo de replicar e entender a sociedade fora da escola, condicionando a si mesmos para o comportamento fora dela. Com isso, as crianças e adolescentes aprendem a como ganhar destaque em sua comunidade, como funciona a estratificação social entre seus semelhantes. E, para conseguir sucesso social, inúmeros meios podem ser usados, como conseguir boas notas, ir bem nos esportes, possuir uma boa fama entre o sexo oposto, e, não menos importante, a opressão psicológica/física, mais conhecida como bullying.
E tal qual ocorre na esfera adulta, temos de nos destacar, mas dentro dos padrões da “normalidade”. Ser diferente não se inclui nisso. Ser diferente é sinônimo de estranheza, e, logo, algo entendido como uma fraqueza. E o que isso tem a ver com Demi-chan? Tem TUDO a ver. Tetsuo ajuda as garotas não só porque gosta delas, mas também porque percebe todas as dificuldades das mesmas em relação as colegas. Desde o bullying sofrido por Kusakabe na primeira metade do anime, ao desconforto que Machi sente meramente por ter a sensação que as pessoas sentem pena da mesma. Trazendo isto para a realidade, não é nem um pouco diferente de um garoto que é humilhado quase que diariamente em sua sala de aula por conta de seu peso corpóreo, ou então uma menina que possui alguma deficiência física e não consegue se sentir acolhida em sua classe por não poder participar das atividades esportivas em sala...

O tesão da Hikari com a pele gelada da Kusakabe...
Porém, Demi-chan tem uma diferença em relação a nossa realidade. Tetsuo faz o que é preciso ser feito não só como professor, mas como humano. Ao contrário do que nos é mostrado na animação, a grande maioria das escolas não promove uma devida inclusão social, não promove a saúde psicológica de seus alunos, e muito menos se esforça devidamente para combater a prática de bullying. No anime, há uma situação muito interessante, em que o vice-diretor pode para que Takahashi se afaste um pouco das garotas, pois as mesmas deveriam ser capazes de buscar ajuda a outros professores, ou então a seus colegas. Bem, obviamente que ele volta atrás, porém, pouquíssimos profissionais da educação brasileira, que estão inseridos no ambiente escolar, tomariam uma atitude semelhante. Que, diga-se de passagem, é um dever destes mesmos.
Peço perdão caso tenha demonstrado uma certa interferência emocional neste artigo. Minha experiência na escola, e minha formação acadêmica atual me levam a sentir uma certa revolta ao pensar no determinado assunto. Mas ainda assim, é realmente uma pena que determinadas ações morais e éticas só sejam vistas em um anime, ou então somente sejam discutidas após uma comoção geral devido ao lançamento de uma série dramática, ou então um desafio na web de extremo mal gosto.

Mas, deixando de lado a crítica social, Demi-chan Wa Kataritai oferece um ótimo entretenimento. É realmente uma pena que não seja garantido uma segunda temporada (gostaria de ver mais histórias das demis na escola...). Com uma comédia de qualidade, e muitos momentos “kawaii”. E se você quiser sair um pouco da caixinha também, ainda aprender a como ser uma pessoa melhor.

Que um dia o mundo real possua professores como ele
Demi-chan Wa Kataritai – A pedagogia da inclusão Revisado por Miguel Alamino em domingo, maio 14, 2017 Nota: 5
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