Review - Air, a liberdade maldita!




Bom, eu prometi fazer review das principais obras da Key, não é mesmo? Então aqui estou cumprindo o prometido e entregando a vocês o segundo texto desse nosso especial Key! Bom, hoje temos Air, e esse texto tem muito spoiler, se você ainda não viu o anime, não leia aqui, vou te indicar um link para você ler um texto de indicação aqui. Agora, os que decidiram seguir em frente, tenham em mente que falarei sobre o anime com a ideia de que vocês já viram o anime até o fim, Okay? Então vamos lá!

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Bem-vindo a Air!


Foi exatamente no dia 8 de setembro do ano do ano 2000, que assim o mundo passava a conhecer Air; mais uma das obras da Key, a primeira após o sucesso Kanon; um jogo visual novel esperado e muito desejado, porém apesar de tanto interesse na época a obra acabou tendo vendas bem medianas, e seguindo o exemplo de Kanon, Air também foi lançado como um Eroge, um jogo destinado ao público adulto, porém também como Kanon, as cenas "hentai" da obra eram basicamente bônus, eram cenas que só poderiam ser conquistadas ao "concluir" uma das rotas; e mais uma vez seguindo os passos de Kanon, logo em Julho de 2001 a obra foi lançada como livre para todos os públicos, mais uma vez a Key teve a sensibilidade de lançar a obra com todo o conteúdo adulto ausente. Também em 2001 o jogo foi lançado para o Videogame Dreamcast, e no ano seguinte lançado para Plastation 2; e ao decorrer dos anos a obra foi ganhado outras versões para outras plataformas. Logo no inicio do ano de 2004 Air dava seu maior passo, havia conquistado uma adaptação para anime, uma que contou com dezoito volumes, serializado pela Comptiq. Enfim seguiu o caminho esperado, e chegamos ao inicio do ano de 2005, o ano em que Air ganhou sua adaptação para anime; a adaptação contou com inicialmente doze episódios, e posteriormente no lançamento de seu DVD ganhou mais dois episódios extras, OVAs focados no arco Summer. Apesar de ter sido adaptado com primor pela Kyoto Animation, e contar com algum número de fãs, a obra não ganhou a visibilidade que merecia; apesar que continuou na atenção dos fãs, tanto que no mesmo ano de lançamento do anime, a obra ganhou um filme, porém esse não foi de agrado dos fãs, deformou personalidades e escapou ao objetivo inicial do enredo. Em suma, foi uma obra de sucesso mediano, mas que em qualidade de animação e enredo, não ficou devendo em nada.


Air nos conta várias histórias, porém o gatilho que dá inicio há vários desfechos é Kunisaki Yukito, um viajante que vive em peregrinação sem destino algum, porém com um único objetivo: Seguir a missão dada a sua mãe, e todos os seus antecessores. Mas a missão de Yukito é misteriosa, ele precisa encontrar a garota alada, a garota que voa pelos céus solitária; assim pediu sua mãe antes de o deixar. Chegando em uma pequena cidade litorânea, nosso protagonista conhece três garotas especiais, e se envolve em suas vidas. Misuzu, Minagi e Kano, são três garotas muito alegres, que apesar do sorriso no rosto sofrem muito. Sem lugar para ficar, Yukito acaba morando de favor na casa de Misuzu, junto de sua mãe, inclusive que descobrimos mais tarde se tratar de sua tia, e mãe adotiva . Na pequena cidade Yukito também consegue uma vaga para trabalhar em uma pequena clinica médica, além de tomar conta de Misuzu e brincar nos tempos livres com Minagi e sua pequena companheira Michiru. Os dias de verão escondem muitos segredos, e uma triste história sem fim.

Pequenos Fragmentos de algo maior!


Ufa, quantos nomes citamos nesse último paragrafo não é mesmo? Talvez você tenha se esquecido um pouco do anime, mas agora vamos entrar no elenco, e certamente você se lembrará de todos! Para começar temos Yukito, um protagonista que pode ser descrito como rebelde, porém bondoso. Yukito não é um personagem que se deixa levar por todos ao seu redor, muito pelo contrário ele costuma demonstrar resistência a tudo, tanto que possivelmente seu maior terror com Misuzu tenha sido a dúvida em avançar ou deixa-la para trás. Bom, Yukito ao menos em aparência é bem mais velho que as garotas a sua volta, então escapamos bastante do clima romântico; porém no Visual Novel temos todas as rotas encerramento com cenas explicitas de sexo, bem nebuloso não? E o pior que o questionado filme de Air segue justamente o lado mais romântico entre Misuzu e Yukito. Nosso protagonista é muito bom em se envolver nas vidas dos outros, tanto que em pouco tempo ele já é um grande confidente de todos os principais personagens, ele é carismático e prestativo, então todos a volta acabam não resistindo muito a ele, porém isso traz a ele muita dor, pois cada problema acaba refletindo diretamente nele. Bom, mas quando eu digo protagonista é apenas por costume, afinal ele é protagonista apenas da primeira metade da obra, e basicamente personagem de fundo na última parte da obra.

As garotas: Misuzu, Kano e Minagi; cada uma delas tem um drama pessoal, que inicialmente é restrito a elas, mas que no fim acaba sendo um fragmento de algo maior; começando por Kano. Uma garota muito inocente, que sonha com o dia que poderá retirar o laço preso em seu braço, e adquirir o poder para voar com asas pelo céu. É claro que ao ouvir essa história da garota ela se torna a principal suspeita de Yukito, mas desde o inicio ele já tinha sua resposta. Em todo caso, Kano é cheia de energia, e sabe esconder muito bem sua dor, porém quando Yukito se aproxima mais da garota, descobre que desde um incidente em sua infância, ela tem alguns surtos estranhos; a garota aparentemente sofre de bipolaridade, tendo uma personalidade estranha que surge do nada, e costuma a fazer sair andando até o templo local. Porém quando o enredo dá foco em Kano, descobrimos que o incidente que terminou nessa estranha condição, aconteceu quando ela tocou em uma brilhante pena que havia sido guardada por muitas gerações no templo da cidade. O maior desejo da garota acaba ganhando vida também graças a essa pena, quando ela ganha o poder de ir até o céu e visitar sua já falecida mãe, e após o acontecimento, ela volta a viver em paz com sua amada irmã. O interessante no caso de Kano, é que Air não é do tipo da obra que explica tudo que acontece, simplesmente deixa nas mãos do espectador juntas as peças que são lançadas em condições totalmente aleatórias. Do incidente de Kano tiramos o fragmento inicial da lenda sobre a garota alada, esse fragmento é de importância fundamental para o nosso artigo hoje, então vamos atentar para o que acontece com Kano! A garota em um dos vários incidentes, tenta esforçar Yukito, assim como tem uma estranha marca em seu pulso, uma marca que sugere tentativa de suicídio. Quando nos é permitido olhar um pouco mais de perto, conhecemos a história antiga, onde uma mãe havia peregrinado com seu bebê, e quando chegou até uma vila, lá ficou, e após algum tempo os moradores locais desejaram a morte da criança; em pânico a mãe cometeu suicidio deixando para trás a criança. Essa mãe rancorosa habitou na pena onde Kano tocou, e assim ela foi possessa pela mãe da garota que voa pelos céus solitária. A mensagem que Kano trazia era basicamente um preludio do fim; mas ninguém ouviu o aviso.


O segundo fragmento é Minagi. Ela sofre com um problema mental de sua mãe, que desde que perdeu uma criança não consegue mais viver em paz, a mulher vê em sua filha mais velha a figura de Michiru, a filha que perdeu. Isso causa uma dor profunda na silenciosa Minagi, que após perder seu amado pai que se mudou para muito longe, passa a viver uma vida que não é sua, e sim da sua falecida irmã. Em meio a tudo isso, ela conhece uma garotinha chamada Minagi, assim como sua irmã, e que se apega demais a ela, assim as duas passam a viver praticamente juntas, a todo momento estão se divertindo unidas por um forte vinculo. Yukito entra na vida das duas por coincidência, e por algum tempo a dupla acaba sendo o grande escape do homem, que já via problemas pesados por todos os lado, mas ele não poderia imaginar que ali também havia um grande obstáculo. Minagi não é do tipo que reclama facilmente de seus problemas, então de imediato ela demonstra satisfação com sua vida, até que sua mãe piora e esquece até mesmo que um dia teve uma filha, e passa a negar a existência tanto de Minagi quanto de Michiro. Nas palavras de Minagi "Ela fez parte de um sonho de outro alguém, um sonho que agora morreu"; e é nesse momento que ela acaba revelando tudo a Yukito. O caso é que de fato a Michiro que anda para todo lado com Minagi é sua irmã amada, que apesar de não ter tido permissão para vir ao mundo por meios naturais, conseguiu romper os céus e descer por amor de sua irmã. Minagi é um fragmento curioso da história, mas nunca foi uma candidata a ser a garota alada, pois em vários de seus momentos de reflexão, ela se põem a dizer que é alguém sem asas, alguém que não pode sonhar. Após todo o desenrolar, presenciamos a partida de Michiro, que por fim diz que precisa partir para fazer um pouco de companhia para a garota que habita os céus, e voa solitária. Michiro foi a enviada para anunciar um último momento da garota alada, um momento triste e cruel.

Então chegamos ao terceiro fragmento, a garota que sonha; Misuzu. Desde o primeiro momento, ela era a garota alada; nunca foi segredo, afinal ela sempre deixou claro o seu desejo em ganhar os céus. O Drama da garota é finalmente revelado quando Yukito descobre que toda vez que ela tenta fazer uma amizade, ela começa a chorar e fica em estado de melancolia, uma tristeza profunda a ponto de doer em sua alma. O mais triste para Yukito que imediatamente tenta se afastar dela para não sofrer e quem sabe remediar o estado da garota, é saber que não importa o quanto tente, no fim ela terá um destino cruel. Em questão de evolução de personagens, eu posso dizer que a Key não voltou a criar um personagem tão profundo quanto Misuzu. É uma dor tremenda para o espectador acompanhar o avanço dos episódios, e a forma como a garota alegre e cheia de esperanças do primeiro episódio, acaba aos poucos se degenerando, até sobrar apenas a sombra do que ela foi um dia. Misuzu, tem o sonho mais triste que alguém já teve, e sempre que seu destino se aproxima um passo mais, esse sonho continua, e de imediato o único a descobrir sobre foi Yukito, que recomendou que ela escondesse de todos. Aos poucos nos deparamos com a triste verdade, e o fim de Misuzu era apenas questão de tempo. Em seus últimos momentos, a garota podia até relatar a dor em suas asas; Yukito não suportou ver ela sofrer e definhar rumo a um triste fim, e deu sua vida em um estranho ritual para que ela pudesse ter outra chance, e assim nos aproximamos do fim...

Air, Dream, Summer


Air pode ser dividido em três partes, os três arcos da obra são: Dream, Summer e por fim Air. Na primeira parte nomeada Dream, temos Yukito como protagonista, e na segunda parte temos Ryuya, um antepassado distante de Yukito, um homem que foi guarda-costas de Kannabi, a verdadeira garota que voava pelos céus. Essa segunda parte é de importância definitiva para a compreensão da obra. Na terceira parte, temos Haruko e Misuzu lutando juntas pelo futuro da já adoentada Misuzu, porém temos Sora, um corvo, no Visual Novel, nesse momento você assume como esse corvo, e a sua visão é a dele em toda a terceira parte da história. O mistério triste por detrás desse corvo é que claramente ele é Yukito, que apesar de tudo está ali tentando proteger a vida de Misuzu. Uma clara verdade por trás de tudo nessa história, é que Yukito é Ryuya e também o corvo, afinal a ele foi encarregada a missão de proteger a garota alada, e apesar de séculos terem se passado, ele sempre retornou como uma nova vida para acompanhar o caminho de Misuzu, que claramente é a mesma garota que um dia voou pelos céus. Isso é dito pelo anime? Não, é necessário ver mais do que a obra mostra para chegar a essa conclusão; mas ela é acertada.

A Liberdade Amaldiçoada


Enfim, chegamos no ponto máximo da review. A Liberdade amaldiçoada. Certamente quando pensamos no simbolismo para asas, instantaneamente nos lembramos da liberdade, é algo bastante simples de compreender, e não é exclusivo da nossa cultura, mesmo nas religiões japonesas temos a interpretação de asas como liberdade espiritual. Mas, desgraçadamente a garota que deveria voar livre, já foi presa desde seu nascimento. A lenda a qual o enredo gira entorno, nos conta de pessoas aladas que sempre existiram no passado, porém em toda cidade que habitavam traziam a desgraça a todos; e assim eram perseguidos e mortos. Foi com esse fardo que nasceu essa garota, que desde o momento em que veio ao mundo já era perseguida para que sua vida fosse tomada. Mas, quem dera fosse esse seu destino, certamente a morte teria sido sua sorte. A peça mais nebulosa desse quebra cabeças é Kannabi. Quem seria ela? O bebê cujo a mãe cometeu suicídio? Mas ela tem mãe viva! Uma reencarnação seguinte? Possivelmente, já que claramente isso acontece em um looping infinito. Mas algo liga as três "garotas com asas" a nenhuma delas foi permitido ter uma mãe; O bebê teve a mãe cometendo suicídio a sua frente, Kannagi viu sua mãe morrer em seus braços, e Misuzu perdeu sua mãe, e apenas conseguiu amar sua segunda mãe quando sua vida já estava no fim. Enfim, a vida que nasceu com o mais profundo desejo de liberdade, ganhou como destino uma liberdade amaldiçoada. Todo homem vivo é preso pela morte, e em algum momento terá que se deparar com ela, porém para essa garota alada isso não é uma verdade, pois ela sempre retornará e sofrerá muito, até que mais uma vez o ciclo recomece. Muitos foram os dramas já propostos pela Key, alguns muito tristes e profundos, mas talvez nenhum se compare com Air, pois essa é uma história onde a morte é um mero detalhe, e que o peso é ainda mais cruel. A garota que desejou a liberdade mais que todos; que sempre viveu de alguma forma restrita, não tem a liberdade mais importante: A liberdade de sua alma, que atormentada segue possuindo e levando a vida de garotas ao decorrer dos séculos. Não houve uma liberdade para nascer e crescer, não houve liberdade para voar, e não existiu a liberdade para amar. O mais triste da história de Misuzu é que toda vez que ela vai amar alguém ela é cruelmente arrastada em alguma direção que não deseja. É impossível para ela ser feliz; nem mesmo um amigo ela pode ter. E o pronto crucial de tudo isso, é que mesmo com o sacrifício de Yukito, e todo o clamor da alma de Haruko, não foram suficientes para libertar ela desse inferno sem fim. No fim do anime, vemos de outra perspectiva, tudo recomeçar, e o looping recomeça, a dor tem seu reinicio, e ninguém os pode salvar disso, e foi assim que a liberdade se tornou uma maldição indesejada.

Um dos pontos mais macabros dessa história é a aparição de três garotas importantes de Kanon dentro do anime Air; Ayu, Makoto e Nayuki fazem duas aparições ao decorrer da obra; ainda com os traços antigos da primeira adaptação de Kanon, pois o ano era 2004, antes do lançamento de Kanon 2006. O mistério nessa aparição é quando colocamos Ayu, uma garota que claramente carrega asas nas costas em meio a esse enredo todo; e para piorar, a última cena que aparecem chega a ser macabro, pois elas aparecem em terceiro plano em uma cena, e lá trás se despedem de forma contida e triste, como se agora fossem partir; as três juntas, tudo isso após a morte de Misuzu. Talvez seja essa uma forma de expressar que por onde a garota alada passa, de fato há dor e sofrimento? Seria essa uma forma de colocar a todo o azar e tragédia de Kanon, também na conta da garota que voa sem companhia? Esse é talvez um mistério impossível de solucionar, mas considerando os enredos tão minimamente elaborados, acho difícil pensar em coincidências ou brincadeiras por parte da Key.

Conclusão


A ambientação de Air é toda em um quente verão, uma estação que inicialmente expressa vida, e agitação. Na maior parte das obras, quando nos deparamos com o verão, sabemos que iremos testemunhar cenas alegres onde o calor e a juventude estão em seu auge, onde tudo de feliz acontecerá; mas em Air, o calor, os sons de fundo, os cenários típicos, os festivais, cada um desses pequenos elementos, apenas se acumulam junto da profunda ferida que Misuzu carrega, e apesar de sempre se achar sozinha, Yukito sempre esteve ao seu lado; mas isso provavelmente nunca será percebido. E é em um verão infernal, e sem uma interrupção milagrosa que Air termina. É surpreendente, diferente das demais inadaptações de obras da Key, essa não explorou o final milagroso e feliz; e sim um final que rasga a alma do espectador atento. Uma obra de artes, um clássico e uma verdadeira fábrica de lágrimas. Esse é Air, uma história de verão com inicio e fim tristes. Essa é a história da liberdade amaldiçoada.


Bom, como prometido estou fazendo reviews das minhas amadas obras da Key, a próxima vocês já sabem qual será? Tentem advinha! E bom, até a próxima...