Review - Kanon (2006) - Kanon e o Cânone!




Um tempo atrás eu vi uma review de Kanon por ai bastante injusta e feita por quem não tinha a mínima experiência nem como Otaku muito menos como um criador de conteúdo; nesse momento eu resolvi escrever uma review (como se já não tivesse escrito sobre Kanon antes né?); mas antes de escrever eu deixei passar um tempinho para passar a raiva, e sobrar apenas a vontade de escrever sobre essa obra que eu tanto amo! Bom, dito isso também pensei em escrever em sequência sobre as obras da Key, então estarei fazendo uma sequência especial de reviews de obras deles. Bom, em todo caso abaixo temos o texto, onde você encontrará bastante spoiler, então se nunca assistiu Kanon, aqui vai um link de um texto sem spoiler, e que lhe contará um pouco sobre o anime.

Apresentação Técnica


A longa jornada do título Kanon começa em 4 de junho de 1999, quando o recém criado estúdio de criação de jogos Key, estreou sua primeira obra; Kanon, um jogo estilo visual novel voltado para o público adulto, muito embora o conteúdo adulto da obra fosse apenas uma parcela minúscula de um todo. O titulo era voltado exclusivamente para computadores, mas no ano seguinte isso iria mudar, já que devido ao imenso sucesso Kanon ganhou uma versão para o videogame Dreamcast; e simultâneo
a isso teve uma versão livre de imagens eróticas, indicada para todo o público lançada. O crescimento de Kanon parecia não ter limites, e logo em 1999 a obra já ganhou uma adaptação para light novel pelas mãos de  Hinoue Itaru na arte e Shimizu Mariko na história; light novel essa que seguiu sendo lançada até o ano de 2011. No ano de 2000 a obra ganhou também adaptação para mangá, e nos anos seguintes ganhou versões em CD's de Drama. Foi em 2002 que a obra estava para dar o passo mais largo de todos, e foi adaptada para anime pelo estúdio Toei Animation, porém essa adaptação não passou de uma exposição de bizarrices, a adaptação ficou tão patética que quase não merece ser mencionada; com erros bizarros no design de personagens, cenários, e tudo mais, a obra teve apenas treze episódios e um ova. Quando já parecia esquecido e enterrado, Kanon ressurge em 2006, com uma nova adaptação que ignorou totalmente a primeira tentativa, dessa vez adaptado pelo estúdio Kyoto Animation que concluiu o trabalho com um resultado absurdamente superior a primeira adaptação. No caminho de Kanon apenas sucessos foram surgindo, e até mesmo ganhou grandes prêmios como visual novel, e encabeçou por vezes os ranks de vendas.

Como Começa Kanon...


Mas Kanon não é feito apenas de números não é? Bom, Kanon é uma história focada em drama, baseada em um principio simples mas bem elaborada, e nos apresenta a história de vida de Aizawa Yuuichi um estudante colegial bastante sarcástico, que devido a razões familiares se muda para uma pequena e fria cidade, onde passa a viver com sua tia Akiko e sua prima Nayuki. Yuuichi porém não está visitando a cidade pela primeira vez, pois até sete anos antes ele frequentava a cidade em suas férias, quando ainda criança, e lá ele fez muitas amizades e presenciou muitos acontecimentos tristes e
alegres; o único porém dentro de tudo isso, é que Yuuichi agora retornando a cidade, não se lembra de nada de sua infância naquela cidade, porém leva esse fato como se fosse uma perda de memória comum devido ao tempo que se passou, e considera que nada de importante aconteceu nesse tempo que não se lembra. Porém, a verdade é que muito aconteceu no passado, e Yuuichi agora com dezessete anos precisará se esforçar para resolver os vários problemas que esqueceu no tempo, e ao mesmo tempo lidar com o presente sempre em mudança. O protagonista se reencontra com quatro garotas de seu passado, duas delas com o mesmo problema que ele, uma amnésia seletiva, que acaba ocultando importantes fatos do passado. Em contra partida, as outras duas garotas, uma se lembra de tudo mais prefere não entrar em detalhes, pois teme que as lembranças não sejam boas, e a outra parece não conectar Yuuichi a seu amigo do passado. Nessa mistura de lembranças e acontecimentos tristes e felizes, Yuuichi aos poucos começa a se lembrar de cada fragmento do passado, e é nisso que a obra se foca.

Canon ou Cânone


Você leitor, de fato sabe o que é Kanon? Bom, já falei outra vez sobre isso aqui no blog, mas acho importante reiterar o fato de que Canon é uma peça musical original do compositor alemão Johann Pachelbel. Uma composição suave, que parte de uma estrutura baseada em Looping's; ou seja pequenas repetições com pequenas alterações ao que a repetição é feita. A música começa com tons de agudos, e cada vez vai se aproximando mais de tons graves. Cada vez que há a repetição, e os tons agudos recomeçam de seu auge, mais rápido a música se aproxima também do tom grave; assim sendo a música sempre aumenta em velocidade, seguindo sempre a mesma formação. Bom, é importante eu contar disso para vocês, afinal esse é o grande ponto chave de Kanon! Encare esse fato como o grande segredo da obra, e sendo ela a primeira do grupo Key, pense nesse como o grande segredo deles; e se não conseguiu entender, leia mais abaixo, e se necessário retorne a esse paragrafo mais uma vez após.

As Personagens são...


Vamos nos situar nesse enredo cheio de direções! Então antes de nos agarramos no enredo, e no sentido de Canon Dentro de Kanon, vamos falar um pouco sobre os personagens! Bom, a parte visual dos personagens não é um grande segredo, foi apenas uma escolha comercial na época, uma aposta de introdução de várias heroínas com perfis diferentes para agradar a todos, no jogo é literalmente o estilo "pegue a sua favorita". Mas isso é inevitável para um jogo desse tipo, o interessante é que em contra partida os personagens foram muito bem construídos! Há um ritmo para cada personagem, da mais lenta e silenciosa Mai, até a agitada e brincalhona Makoto; todas em um ritmo diferente. Cada garota
tem um cenário próprio, uma música própria, uma comida favorita. Seguindo exatamente a ordem: O tema de Ayu é Cidade Ensolarada (Hidamari no Machi, 日溜りの街?), o de Nayuki é Garota da Neve (Yuki no Shoujo, 雪の少女?), Makoto têm como tema "The Fox and the Grapes" (A Raposa e as Uvas); Shiori tem Depois do Sorriso (Egao no Mukougawa ni, 笑顔の向こう側に?); e por último o tema de Mai é A Prisão da Garota (Shoujo no Ori, 少女の檻?). Quanto a comida: Essas cinco comidas em especial são: Taiyaki (Ayu), morangos (Nayuki), nikuman (Makoto), sorvete (Shiori) e gyudon (Mai). O que ganhamos listando tantos fatos? Bom, a intenção é trazer a tona a construção básica porém profunda dos personagens da obra! O Anime parte de um jogo, e no jogo tais fatos são importantes, ter ciência dessas informações garante o avanço na sua partida, porém no anime não; e devido a isso muitas obras baseadas em jogos não trazem na adaptação tais fatos, mas Kanon trouxe, e isso foi interessante de observar, pois trouxe uma "Ordem natural" ao enredo, que mais tarde se tornou crucial para o bom desenvolvimento. Mais sobre as heroínas? Bom, eu escrevi uma review dedicada a elas, e se você estiver definitivamente interessado na obra, acho que vale a pena ler, o texto será complementar a esse, aqui vai o link.

O Protagonista Yuuichi!


Mas, falando de personagens precisamos falar de Yuuichi, o protagonista não é? Bom, ele é uma aposta ousada, que provavelmente foi feita em 1999, mas não seria feita hoje; Consegue imaginar o motivo? Bom, precisamos partir do principio, aqui no blog já falamos sobre personagens genéricos várias vezes, e você precisa entender um pouco sobre isso para continuarmos a elogiar Yuuichi! Personagens vazios parecem ruins, não é? Bom, exceto quando ele é o protagonista, pois talvez assim ele pode se sair melhor que um personagem complexo! O principio dessa ideia é que a maior parte das pessoas não se vê de forma complexa, pois entender a si mesmo é simples, não é? Então basicamente se você cria um personagem simples, com uma aparência simples, com uma idade média do público alvo, e acima de tudo, sendo ele adolescente ele não tem nenhuma habilidade que o destaque, afinal assim são os
adolescentes; todos esses elementos formam um protagonista genérico, sem atitude e vazio, um personagem perfeito para grande parte do público se ver nele! Então quando ele ganha um poder e é exaltado entre todos ou quando é perseguido por um mar de garotas e invejado por todos, nesse caso você ama o protagonista, pois se enxerga nele, e vê seu ego gloriado nas ações dele. Nesse rumo vemos por ai um mar de protagonistas vazios, sem atitude, passivos em uma história até o momento de sua "glória". O que o Yuuichi tem a ver com tudo isso? Bom, sendo ele protagonista de uma Visual Novel, a chance dele ser assim aumentava ainda mais, é MUITO importante em um jogo onde você vai conquistar uma garota, que você se enxergue no protagonista; mas o chocante é que o Yuuichi não é assim... Sim, ele não foi construído no modelo básico, nosso protagonista é cheio de atitude, faz tudo se mover por conta própria, e cole ele mesmo as consequências, ele está sempre em movimento, tem caracteristicas fortes como sarcasmo, e o humor negro; e não é agradável a todo tempo, apenas quando necessário. Yuuichi não é indeciso, muito pelo contrário, ele nunca pede permissão para nada, ele apenas faz. Por conta desses elementos, consigo imaginar ele sendo odiado por muitos, afinal será muito difícil alguém se enxergar nele...

Ordem nos Cenários e Na trilha Sonora!


Chegamos ao Canon? Ainda não, calma que vamos chegar lá! Já falamos dos personagens, agora precisamos falar um pouco sobre os cenários! Bom, já falamos que cada personagem feminina da obra tem seu cenário chave, assim como outros elementos particulares de cada uma. O que torna Kanon excelente nesse elemento, é a elaboração e massiva repetição de cenários importantes. Funciona da seguinte forma: Cada cenário importante é repetido durante quase todos os episódios de ângulos diferentes, mas claramente dos mesmos lugares. Em cada momento da obra, desde a ida para o
colégio, até as madrugadas, são sempre em alguns mesmos lugares, esse é um elemento que acima de tudo traz ordem a obra, e uma aproximação do espectador com a cidade. Ao fim de Kanon, a cidade já foi totalmente explorado por você, a ponto de que cada cenário da obra não passa despercebido a quem assistiu com atenção. O importante de tudo é que há ordem; os cenários não são aleatórios, eles são sempre em sequência  e criam  uma espécie de conforto visual, uma forma de preparar o espectador para CANON. E o elemento primordial entre todos os cenários, é o cenário como um todo! E ele é baseado especificamente no tema inverno, em uma cidade que sempre está nevando, esse é um elemento muito importante para Kanon, e outras obras da Key. O cenário de inverno se torna cada vez mais hostil conforme os episódios avançam, e o inverno parece nunca acabar. A ambientação é perfeita, e nos trás uma sensação realmente de desespero quando a conclusão está próxima, tudo para que quando o inverno enfim termine, possa existir a sensação de liberdade, mas até lá, você está preso como espectador de um inverno infinito.

Prometo que após esse paragrafo falaremos enfim de Canon; eu sei você já deve estar bravo comigo; mas eu insisto que é necessário conhecer todos os elementos usados para montar esse quebra-cabeças. A trilha sonora da obra é agradável, e variada. Bom, o pessoal do Maeda Jun  é realmente conhecido por esse talento na área musical, que realmente é um grande destaque das obras da Key. Em Kanon é uma variedade de temas musicais, tanto que já falamos que cada protagonista tem uma música chave para ela! Tudo isso colabora para a ordem existir; tudo é em prol de criar um cenário convidativo a todos. Bom, além das já citadas, temos na questão musical em destaque a abertura Last Regrets e o encerramento Kaze no Tadori Tsuku Basho, criados especialmente para Kanon. E em alguns momentos podemos até mesmo ouvir de fundo Cânone em Ré Maior, se preferir Canon. E agora iremos a conclusão do texto...

Enfim Canon e Kanon...


Bom, chegamos ao esperado momento de falarmos de Canon. Bom, até então você já conheceu tudo que temos em Kanon, o anime; espero ter passado com a maior fidelidade a vocês leitores todo o elaborado esqueleto por detrás da obra, suficiente para que você possa acompanhar agora sem confusão o grande segredo de Canon. Bom, no inicio desse texto descrevemos a música Cânone em Ré Maior como uma música que vai aumentando seu tom cada vez mais rapidamente, sempre almejando alcançar o tom grave, e quando o faz recomeça do agudo sendo que sempre que acontece ele aumenta sua velocidade um pouco, até chegar em um ritmo frenético. Bom, e o que isso tem a ver com o anime? Bom, tudo! O enredo de Kanon é baseado em ordem, a desordem é o auge. Vamos pensar no cotidiano de Yuuichi: Ele acorda pela manhã, e toma café com sua tia, Nayuki e mais alguém; vai para o colégio com Nayuki; já em aula em um dos intervalos ele se encontra com Shiori, na hora do almoço ele fica com Mai e Sayuri; se encontra com Ayu após o colégio, janta e depois vai ver Mai no colégio; e por fim na hora de dormir precisa lidar com Makoto tentando pregar peças. Bom, esse ritmo apesar de evoluir, é sempre repetitivo e baseado em uma vida cotidiana calma! Todo episódio vemos isso acontecer ao menos uma vez, isso quando o episódio não é uma excesso a ordem, ou seja uma
desordem. Assim como a música Cânone em Ré Maior, Kanon também tem seu ritmo; começando sempre leve e tranquilo, em um cotidiano calmo e invejável, onde Yuuichi se diverte e passa bons momentos com várias amigas; até que algo aconteça. Assim como Cânone, Kanon também evoluí seu "tempo de evolução"; Observemos do primeiro episódio, onde há introdução dos personagens e ritmo da obra, além do cotidiano de Yuuichi, até o primeiro momento de grave (conseguindo acompanhar a comparação do tom grave, com o momento de tristeza?). Até o momento de tom grave* ou seja o momento triste demoramos dez episódios, apenas no décimo episódio com a morte da raposinha Makoto nós temos nossa primeira "virada" e definitivo momento de tristeza. Mas é nesse momento em que o enredo recomeça em um cotidiano, um reinicio dos momentos felizes para Yuuichi, que apesar da tristeza passada, se recupera e se põem novamente disposto a bons momentos, porém esse bom momento dura apenas cinco episódios! A exata metade do tempo anterior; e em cinco "momentos" Yuuichi quase perde duas de suas melhores amigas; o ritmo da música aumentou, mas como esperado dentro de Cânone, o ritmo fica novamente ameno, e temos um reinicio, que dura apenas três episódios, onde novamente o tom grave surge, e dessa vez Yuuichi perde Shiori. Bom, nesse ritmo chegamos a conclusão em velocidade insana, assim como é Cânone em Ré Maior. E é assim que relacionamos a música, e seu estilo de construção, em que foi baseado o nome do anime, com o ritmo da obra! Ritmo esse que segue com pequenas alterações em várias das obras da Key, obras como Air e Clannad seguem essa estrutura complexa e ao mesmo tempo simples!

Conclusão...


Kanon além da bela forma de apresentar seu ritmo de desenvolvimento, também é uma obra bastante interessante quanto a seus múltiplos desenvolvimentos simultâneos, algo que foi herança da visual novel, mas que foi muito bem executado no anime também. Os dramas de várias heroínas sendo revelados aos poucos, junto com o grande mistério de Yuuichi; bom esse é Kanon.


Bom pessoal, aqui é a conclusão, onde eu espero ter conseguido passar a mensagem que consegui extrair da obra; sei que é um pouco complicado entender a estrutura de Kanon, e por isso tenho minhas duvidas se me fiz entender durante o texto, mas creio que exceto na última parte do texto essa review foi bastante direta e objetiva; na última parte onde nos deparamos com o grande segredo da obra, é inevitável adentrar com tudo no mundo de Kanon. Mas acredito que apesar dessa observação profunda da obra, que só consegui obter após assistir a obra incansáveis vezes, Kanon é sim uma obra divertida e simples no modo de introduzir e desenvolver seu enredo; é acima de tudo uma obra apaixonante e para os mais próximos uma obra nostálgica.

Bom, como eu disse na introdução, pretendo trazer outros textos das outras obras da companhia Key, então se gostou desse texto fique atento aqui que logo sairá outro texto de outra obra deles. Até a próxima pessoal!