Meditando no Enredo - #12 Kokoro Connect - Geração Sentimental!




Esse é um artigo que busca desenvolver melhor alguns assuntos propostos de forma mais tímida por alguns animes. Normalmente o artigo se desenvolve comparando fatos da realidade, com o assunto proposto no anime escolhido da semana, e justificando/explicando fatos comuns nos animes.

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Um dia desses eu ouvia música enquanto escrevia, inclusive foi quando estava escrevendo um texto sobre Kiseijuu, a música que me chamou atenção foi Sentimental Generation, música da segunda abertura de School Rumble, e imediatamente o tema "geração sentimental" me veio a mente como um bom tema para escrever. Imediatamente pensei em escrever sobre Angel Beats, mas após pesquisar e assistir alguns episódios, decidi por escrever sobre Kokoro Connect! Bom, o texto segue abaixo, mas antes devo dizer que se você leitor ainda não conhece o anime, talvez seja melhor clicar aqui e ler uma indicação, afinal o texto abaixo contém graves revelações sobre o enredo.

Kokoro Konekuto...

Kokoro Connect ou como é conhecido no Japão "Kokoro Konekuto" é uma obra que antes de ser adaptada para o anime tão falado por ai, era uma light novel escrita por Anda Sadanatsu e ilustrada por Horiguchi Yukiko (Kanon, Clannad) obra essa que foi publicada de janeiro de 2010 até o fim de 2013 quando enfim chegou a sua conclusão. A obra antes de ser adaptada para anime foi adaptada para mangá, sendo esse serializado pela Famitsu Comic Clear, onde a história original foi conservada porém recebeu outro ilustrador, essa adaptação se iniciou também no ano de 2010 pouco após o inicio da light novel, e terminou curiosamente em 2013, pouco antes da obra original ser também concluída, o mangá teve apenas cinco volumes no total. Nesse meio tempo a obra ganhou além de um Spin-Off em mangá, um CD-Drama e outras pequenas participações em materiais do tipo. Podemos dizer que a obra viria finalmente a receber seu troféu mais importante quando recebeu sua adaptação para anime no ano de 2012, anime esse que teve doze episódios além de quatro episódios especiais que concluem a adaptação.

Kokoro Connect nos conta a história de cinco adolescentes pertencentes a um clube colegial conhecido como Soces, um clube cujo o objetivo é estudo cultural, mas na prática é evidente que o clube não é dos mais produtivos, e os protagonistas que levam muito bem suas vidas sendo amigos, convivem em um cotidiano bastante agradável. Os garotos: Taichi e Aoki, e claro as garotas: Himeko, Yui e Iori. Esses são os personagens que protagonizam os acontecimentos estranhos e misteriosos da obra. Tudo tem inicio quando em um dia qualquer eles começam a trocar de corpo entre si, e o que parece apenas um pesadelo acaba se revelando algo muito mais assustador, quando um ser parasita desconhecido que se apresenta como Fuusenkazura surge, e estabelece que os protagonistas estão em uma espécie de jogo, onde em todo caso o objetivo é que ele se divirta com suas interessantes reações durante momentos nada comuns em suas vidas. É claro que nenhum dos personagens aceita muito bem a proposta do misterioso, mas como tudo parece místico e muito longe do conhecimento humano, nenhuma opção resta a não ser conviver com as interferências de Fuusenkazura.

Devo dizer que ao que a proposta do anime inicialmente é a troca de corpos entre adolescentes, em um grupo formado por três garotas e dois garotos, é muito natural que a princípio se imagine uma obra programada para o ecchi pesado e quem sabe até mesmo um Hentai, não é? Quer dizer, a proposta é perfeita, eu não sou conhecedor dessa faceta obscura da cultura Otaku, mas tenho a absoluta certeza de que devem haver muitas obras com essa proposta de troca de corpos que se aproveitam da situação para estabelecer situações sexualmente explícitas. Dito isso, devo dizer que o surpreendente é que a obra não avança quase nada nesse sentido, apenas deixa que a imaginação das possibilidades surja, e logo após já inibe que qualquer fan-service seja feito nesse sentido mais sexual. Mas também o foco da obra não é bem se passar por um cotidiano colegial, o foco é um drama envolvendo protagonistas adolescentes, e isso a obra faz até que bem! Abrindo uma oportunidade para diretamente deixar minha opinião pessoal, introduzo o fato de que não vejo tal obra como um exemplo de perfeição, entretanto admito que muito me agrada a forma com que as deficiências da obra são sanadas ao decorrer de seu desenvolvimento. Se em primeiro momento há sim algumas grandes deficiências, em segundo momento tais lacunas acabam sendo cada vez mais fáceis de serem ignoradas.


Uma Bagunça Adolescente!


Kokoro Connect claramente se desenvolve em pequenos arcos, onde os mesmos protagonistas são empurrados em acontecimentos sobrenaturais que tendem a influenciar de diferentes formas no convívio do grupo adolescente. Iniciamos com uma proposta bem simples de troca de corpos. Nesse inicio, o protagonista Taichi se demonstra sendo o mais inocente do grupo, onde tudo que ele vê é o lado bom de tudo, mas após ser duramente criticado por essa sua visão, nós somos apresentados através dos olhos de Taichi ao lado mais obscuro dessa proposta, onde Inaba deixa bem claro que não confia em seus amigos, e mal consegue dormir pensando nas coisas que podem ser feitas por eles usando seu corpo. A garota introduz a desconfiança no grupo, onde uma dolorosa verdade caí sobre todos, a incerteza do caráter dos companheiros se torna uma questão crucial quando além de companheiros de clube, eles por diversas vezes compartilham os corpos. Mas isso seria apenas uma pequena brecha do terror que estaria por vir, quando Yui revela sofrer de androfobia! Ela tem medo de garotos, e fica desesperada quando troca de corpo com um deles! Mas é claro que todas as questões podem ser resolvidas, ou quem sabe nem todas, afinal a mais pesada de todas ainda estava por surgir.

A obra não tarda em estabelecer a personalidade de cada personagem, deixando bem claro por exemplo que Taichi se sacrificaria por outra pessoa, pois é tendencioso a isso; assim como Inaba é desconfiada e dura nas palavras; Aoki é decidido, alegre e espontâneo em suas decisões; Yui é marcante com sua androfobia, assim como é doce com as palavras em momentos decisivos. Mas no fim das contas, quem seria Nagase Iori? Desde o inicio da obra ela é apenas uma garota conveniente, mais aos poucos ela acaba apavorada pela troca de corpos, e revela seu maior medo: ela teme por sua própria existência, ela não consegue reconhecer a si própria. Em um dado momento lança a seguinte interrogação: Sendo um humano caracterizado por sua aparência, em uma troca de corpos, como poderíamos saber quem é quem? A possível resposta seria bastante simples "A personalidade está na alma.", mas Nagase Iori é uma garota conveniente, que independente de onde quer que esteja, ela apenas quer agradar a todos, ela muda dependendo das pessoas a sua volta, então como poderia ela saber quem de fato é? Todos os personagens em algum momento acabam tendo que enfrentar seus próprios traumas, e aos poucos cada um alcança a própria solução, exceto Iori, que vai apenas tendo seu fardo aumentado, até que por diversas vezes na obra ela acaba não aguentando e quebrando.

Após o primeiro arco da troca de corpos, a obra nos apresenta ainda outros, sendo o segundo a explosão dos desejos, seguindo da volta a infância e por último e mais cruel, o compartilhamento de pensamentos. Kokoro Connect nos demonstra exatamente o que é uma geração sentimental, os adolescentes são sempre muito frágeis, não é necessário algo místico ou de fato incrível para os fazer "quebrar", eu digo isso com certa firmeza, afinal quando me propus a escrever esse artigo imaginei em primeiro ponto falar um pouco sobre a tendência suicida do adolescente Japonês, e demonstrar que de muitas formas a explosão de hormônios dessa época complicada da vida, guia os jovens a erros algumas vezes irreversíveis, e em outros momentos os guia a inconsistência e a repetidas falhas, porém ao que comecei a escrever me lembrei que esse tema eu já havia abordado quando escrevi sobre Shigofumi, então resolvi entender o princípio "geração sentimental" dentro da obra Kokoro Connect, e explorar a obra de dentro para fora, e é o que pretendo fazer nos próximos parágrafos.

Quem sabe Fuusenkazura não fosse apenas um alien desejando por um pornô humano fresquinho com fetiches para todos os lados? Quer dizer, ele capturou em sua armadilha alguns adolescentes de personalidades únicas, e os colocou sobre alguns testes que certamente renderiam um ótimo enredo sexual; digo para pensar nas possibilidades que poderiam ser exploradas quando eles trocam de corpos, ou quando têm seus desejos mais ocultos revelados de forma indesejada, mais tardar até mesmo eles mudando de idade o tempo todo e no fim o mais fraquinho após tanta coisa seria a troca de pensamentos. De tudo isso, certamente escaparia ao menos um pingo de sexualidade, mais a cultura Otaku já está afogada de ecchi, a exposição adolescente já é tão batida em animes e mangás, que qualquer autor que desejasse explorar um bom drama acabaria se negando a adicionar ecchi em sua obra; e Kokoro connect passou raspando nessa questão! No arco da troca de corpos a primeira coisa que Taichi fez, mesmo sendo um cavalheiro, foi testar seu novo corpo. No arco dos desejos libertos o primeiro a ser liberto foi o de Inaba, que se despiu quase que totalmente na frente de Taichi e pulou para o abraço. Em quase todo arco há esse elemento adolescente escapando, mesmo entre as conversas dos protagonistas há muito da sexualidade adolescente e do desejo quase que imparável escapando, inclusive algumas das cenas mais conhecidas da obra são baseados nesses momentos de "escape" do enredo, e do elenco. A obra foi de diversas formas bastante exata nas pequenas pitadas desse elemento que foi libertando bem aos poucos, afinal seria bem pouco coerente todas as propicias situações ocorrendo, e o elenco adolescente não se aproveitar de nenhuma, isso seria ruim para o enredo, e péssimo para as vendas, afinal o Otaku padrão adora esse tipo de coisa; o mais interessante é que guiado por essa proposta a obra mostrou o "doce" mas nunca entregou, afinal a obra é tão limpa dessa questão do "ecchi" que poderia ser exibida em um jantar de família! Enfim, é claro que nem só de hormônios e sexo é feito um adolescente...

Um adolescente também é feito de confusão. Eu, o autor, tenho meus vinte e três anos, então nem tanto tempo faz que eu deixei de ser um adolescente, e como testemunho de quem a pouco deixou de ser guiado pelos impulsos dessa fase, eu posso dizer que ser adolescente é ser inconsistente! Um dia você pensa de uma forma, e no outro pensa o oposto, é uma loucura! E o pior de tudo é ser sentimental, e acabar sempre seguindo um dos extremos: Ou é tão frágil que só sabe chorar, ou tão bruto que arruma tudo com gritos e as vezes até violência física! O caso é que quando observamos os protagonistas de Kokoro Connect podemos ver claramente a inconsistência que é ser adolescente, inclusive vemos por ai muitos velhos escrevendo textos negativos sobre a obra, afinal é um verdadeiro baile passional a obra, e isso não faz sentido algum! Isso, não faz sentido algum, afinal nem era para ter sentido mesmo. Não bastando o fato de um ser sobrenatural possuir seu professor, e ficar brincando de trocar sua alma de um lado para o outro, com um processo que nós nem podemos imaginar se é seguro ou não, os nossos protagonistas precisavam mesmo se apaixonar!? E o pior de tudo, precisava ser em número ímpar? Como adolescentes nossos protagonistas apenas fizeram o que sabem fazer de melhor: Piorar algo que já está horrível! Inaba decide dar uma de cúpido, e juntar Iori (quase louca) com Taichi (Não tem problema algum na vida). Ótima iniciativa da garota que o tempo todo serve de líder para o grupo, exceto pelo fato de que na sequência ela se apaixona por Taichi, e começa a disputar com Iori (Quase, mas quase louca mesmo); mas Taichi é direto, e rapidamente escolhe qual ele quer com aquele mesmo cuidado de quem decide o pokemon inicial, o problema é que ele escolhe Iori(agora louca), que agora não quer mais ele. E ai a Inaba pensa "Agora sou eu né?" mais ficar por falta de opção é feio, diz Taichi. Bela bagunça passional não é? É tão intensa essa bagunça que poderia muito bem terminar com um homicídio igual School Days. Entretanto tudo isso era previsível, em um grupo de cinco pessoas, com três garotas e dois garotos era certo que com esses elementos o resultado seria confusão. Talvez se fossem três garotos e duas garotas nada teria acontecido, afinal um dos caras seria eliminado e movido para o banco de reservas onde ficaria chorando, mas quando a configuração é de dois garotos e três garotas, onde já há um inicio de romance entre eles, era certo que Fuusenkazura teria uma diversão esplêndida pela frente. Inclusive, não sendo ele um extraterrestre em busca de pornô alternativo, seria ele um ser sobrenatural que se diverte vendo o mundo pegar fogo, mas só pode influenciar adolescentes?


Quem é Nagase Iori?


Se precisamos encontrar um culpado para a estranha situação do clube, eu diria que o culpado é Nagase Iori, a garota com crise de existência. Não é Nagase que impulsiona tudo nesse enredo? Sem ela teríamos um sub-drama bastante forçado, mas quando adicionamos essa garota tão problemática no grupo protagonista, o resto acaba se fazendo sozinho. Cada parte desse grupo poderia muito bem ser considerado desinteressante por Fuusenkazura não fosse Iori, a cola que liga a todos.

Se precisamos falar de Iori, preciso agora ir por um caminho um pouco mais sério! Iori tem dificuldade em entender quem ela própria é. Iori é uma garota que caiu no inferno de Jean-Paul Charles Aymard Sartre. Sartre afirma em uma de suas mais importantes obras a seguinte frase "L'enfer, c'est les autres" ou "O inferno são os outros". Essa frase diz muito da existência humana, e como ela se configura em sociedade. Segundo o pensamento do autor, podemos retirar para nosso contexto a importante mensagem, que se um homem é livre, o seu inferno está presente na liberdade do outro homem, é interessante trazer esse pensamento a Kokoro Connect, pois nessa linha de pensamento apresentada por Sartre, o homem só pode enxergar a si próprio com clareza dependendo dos olhos de outro homem, ao mesmo tempo que os maiores segredos de alguém habita no mais oculto do ser, e não pode ser visto por outro. Entretanto, em Kokoro Connect, esse mais oculto é revelado, e o mais importante para Iori que é ser reconhecida para poder se reconhecer acaba caindo em desgraça, ela acaba por cair no inferno de ter seu mais oculto "eu" revelado a todos. Também seguindo a linha de pensamento desse famoso autor do existencialismo, o homem como ser primeiro existe, depois forja sua própria essência, e quando comparamos esse pensamento ao modo de agir de Iori, percebemos que por diversas vezes a protagonista foge de importantes decisões, e em um dado momento ela deixa claro que não quer tomar uma decisão movida pelo sobrenatural de Fuusenkazura, pois suas existências já foram corrompidas pelas experiências as quais foram submetidos, logo suas essências foram lapidadas pelos acontecimentos, essa foi a forma que a personagem se posicionou diante da declaração de Taichi, ela se vê presa em uma decisão a qual ela não se sente bem em optar afinal não sabe dizer se seu amor é de fato coisa sua ou apenas um fruto das experiências acumuladas ao longo dos eventos sobrenaturais expostos na obra. Apenas analisando alguns poucos momentos de Nagase Iori podemos ir tão profundo no existencialismo, então é inegável a profundidade do personagem e sua loucura existencial que move a obra; me arrisco a dizer que o enredo é "culpa" da Nagase.

Enfim...



Enfim, concluo aqui que apesar de algumas falhas comuns da obra, e mesmo do baixo orçamento ao qual a animação foi submetido, ela em muito acertou ao introduzir o sobrenatural em um drama adolescente, e aos poucos ir tirando do elenco ótimos momentos, sejam eles profundos ou meramente divertidos. Sob o tema de geração sentimental eu pude reassistir a obra toda, e de fato me deparar com bons momentos e até mesmo me divertir quase como da primeira vez que vi, e especialmente pude sentir a intenção do autor de nos expor essa visão adolescente de um sobrenatural, onde apesar de toda confusão eles querem fazer acreditar que há ordem. Percebi que a obra foi bem econômica ao explorar os personagens, explorando apenas fatores que seriam usados pelo enredo, noto isso por exemplo na questão familiar do elenco, onde claramente apenas Iori teve sua família explorada; ou posso exemplificar sobre o passado onde apenas dois ou três personagens tiveram seus passados revirados, e os demais tiveram apenas alguns breves revelações mostradas quase como que por justificativa. Muitos são os momentos da obra, e como eu disse lá em cima, eu realmente não vejo perfeição na obra, mas devo elogiar a sua forma de tratar suas próprias imperfeições, como foi feito com Aoki, que é tão simples que é chamado de "desinteressante" pelo próprio Fuusenkazura. Kokoro Connect é um ótimo drama adolescente, nada além disso, pois desde o inicio é o que pretendia ser, uma obra retratando o cotidiano adolescente, sem grande ousadia, apenas um drama adolescente que por acaso acontece em um colégio.


Apesar de que com atraso de alguns dias, esse é meu texto, talvez não o mais lindo do meditando no enredo (pois estou atormentado pela alergia enquanto escrevo), mas uma opinião pessoal sobre uma obra que pessoalmente eu gosto. Bom, abaixo deixo os comentários em suas mãos, aproveitem e até a próxima.

Um comentário:

  1. Gostei do anime, para mim, kokoro connect se tornou o anime curto que mais gostei( destronou o trigun e love hina XD).Curti que o taichi ficou com a inaba, queria ter visto um pouco dessa personalidade mais gentil e meiga dela XD. Nunca pensei que veria kokoro ser relacionado com Sartre e school days em uma análise XD (que aliás, não esqueço o fim de schol days até hj e se não me engano vi ele em 2011 :-P )

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