Meditando no Enredo - #6 School Days: O verdadeiro final de um Harém


Esse é um artigo que busca desenvolver melhor alguns assuntos propostos de forma mais tímida por alguns animes. Normalmente o artigo se desenvolve comparando fatos da realidade, com o assunto proposto no anime escolhido da semana, e justificando/explicando fatos comuns nos animes.

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Harém, também conhecido no Japão como "Haremu" é o termo usado aqui para se referir ao tema comum e reincidente no mundo dos animes, trata da situação de um personagem rodeado de pretendentes amorosos. Um tema tão popular, que atualmente pode ser chamado de Gênero tamanha a quantidade de obras seguindo esse rumo. O Harém mais antigo que já tive contato se chama Ranma 1/2, em outra ocasião falei sobre esse anime aqui no blog, se trata da história de um protagonista que se torna mulher quando molhado, e ele é rodeado de pretendentes de ambos os sexos, essa história bastante polêmica é datada de 1987, e certamente essa obra não deve ser a primeira a abordar o tema, logo já podemos ver como o Harém é enraizado na cultura Otaku!

O Harém está presente em muitos lugares, praticamente qualquer anime baseado em uma visual novel de relacionamentos, vai ter Harém, afinal é o modelo padrão desse tipo de jogo apresentar uma farta lista de pretendentes para o protagonista, seja ele masculino ou feminino.

Agora já entrando no tema que pretendo abordar, apresento a vocês o polêmico School Days, certamente a apresentação é em vão para a maior parte dos leitores, mas caso você não conheça o anime, eu lhe indico ler aqui.

School Days antes de anime era uma Visual Novel de computador desenvolvida pela Overflow, no Japão conhecido como "Sukūru Deizu", um game de natureza adulta contendo cenas explicitas de natureza sexual, lançado em 28 de abril de 2005. A obra antes de ser adaptada para anime era elogiada por seu conteúdo bonito e esmerado, afinal de contas o jogo conta com praticamente todas as suas cenas animadas, sendo apenas as cenas de decisões substituídas por "slides", o jogo também possuí 21 possíveis finais totalmente abertos a sua decisão, esses fatores causaram espanto e alvoroço em sua estreia, pois o tamanho do projeto era assustador. Dentre tantas opções de finais, sendo alguns bons e outros ruins, três finais possíveis ganharam imensa repercussão e destaque, afinal neles haviam mortes, suicídios e mutilações. O jogo veio cheio de ideias novas, como apresentar o jogo em capítulos como um anime, e ter até abertura e encerramento em cada capitulo, mas é claro que nada chamou mais atenção que os "finais ruins".

O jogo foi tão popular que em 2006 ganhou um spin-off igualmente bem elaborado nomeado como Summer Days, jogo que seguiu o tema adulto proposto pela primeira obra original. E claramente não demorou muito para quem em 2007 surgisse a ideia de adaptar o jogo original tornando-o um anime, como de fato já parecia ser. O sucesso foi tão grande quanto a polêmica que gerou o final escolhido para ser o "real final". Após tanto sucesso o jogo ganhou uma versão livre para todos os públicos em 2008, além de um mangá com dois capítulos, uma light novel com três capítulos e até um drama CD!

Como eu disse acima, os elogios eram numerosos e brilhantes até  a obra ser adaptada para anime, onde atingiu um público muito maior, e muitos despreparados para a história imoral que estavam para assistir. É aqui que proponho o primeiro momento de reflexão do texto: Uma obra eroge, com conteúdo sexual explicito, se torna uma obra infantil só porque o sexo explicito foi retirado?
O anime destinado a quase todos os públicos, contendo um conteúdo visual bastante leve (Não totalmente), veio trazendo a inocente história de amor de Itou Makoto, um jovem um tanto quanto inseguro de si indo ironicamente contra o significado de seu nome que é "confiança". Makoto tem um amor bastante inocente por Katsura Kotonoha, uma colegial bonita e inocente, que todos os dias vai para a escola no mesmo trem que Makoto. Logo no começo dessa inocente história, Makoto escuta sobre uma lenda local de que se alguém tem a foto da pessoa amada como papel de parede do celular e mantém escondido de todos por 3 semanas, essa pessoa certamente conseguirá alcançar a pessoa amada! Porém para Makoto funcionou bem ao contrário, afinal sua colega de classe chamada Saionji Sekai, acaba vendo a foto no primeiro dia, mas resolve o ajudar a alcançar o amor verdadeiro. Para a surpresa de Makoto, logo de inicio Sekai conta para ele que ele é muito popular entre as garotas do colégio, e que seria fácil para ele.

Uma linda história colegial, não é verdade meus amigos amantes de romance e drama? É uma pena que tenha sido adaptado de um eroge, onde pudor é apenas uma mentira. A moralidade que normalmente guia os pensamentos da maior parte dos autores não está presente nessa obra, ela não é inocente como aparenta! Nunca foi... School Days não conta a historia de um rapaz desajeitado chamado Takeo que se apaixona por uma garota sensível, não é Ore Monogatari, nem Lovely Complex, tão pouco Toradora... Só observando o inicio do anime, já é notável que não é uma obra inocente, o público que foi de encontro a obra buscando romance foi gravemente abatido, e ofendido até a alma, não por conta da obra ser boa ou ruim, e sim pois não era nem perto do que estavam buscando!

Vamos olhar School Days mais de perto? Sekai, amiga inocente que ajuda Makoto conquistar Katsura, e
acaba se apaixonando inocentemente por ele no caminho... MENTIRA! Ela já era apaixonada por ele desde o inicio, ela já começa a orgia de traições beijando Makoto logo após ele se declarar para sua nova namorada. Sekai nunca teve pudor, moralidade nunca foi o forte do personagem, ela é mostrada logo nos primeiros episódios trabalhando em um bar com roupas extremamente ousadas, e no decorrer da trama se sujeita a todo tipo de coisa para conquistar Makoto. De inicio existiam dois personagens inocentes na obra: Makoto e Kotonoha, mas Makoto é bastante sujeito a sedução (além de ser violento), e antes de aprender a amar sua namorada e ser fiel a ela, ele aprendeu a trair com a ajuda de Sekai.

Vamos então iniciar o segundo momento de reflexão do texto: Quando um homem inexperiente em romances, descobre que pode pegar todas as garotas do colégio e fazer o que quiser, o que ele faz? Segundo o imenso número de obras Harém que existem, ele fica indeciso entre várias garotas que fariam tudo para ter ele, e não faz absolutamente nada, na maior parte das vezes apanha de todas, e passa anos sem nunca decidir entre nenhuma garota (Vide: Hayate No Gotoku, Love Hina, Toradora, etc...), em alguns casos especiais o protagonista após muita dificuldade escolhe uma garota que normalmente é a única escolha sensata após o enredo eliminar todas as concorrentes.
Infelizmente (para ele) Makoto não leu o "manual do protagonista popular" e pegou todas as garotas que estavam ao alcance de sua mão. Ele brincou de molhar o biscoito tantas vezes que perdeu a conta. O cara pegou mulher até enquanto dormia, foram cerca de dez, ou até mais... Ele perdeu o controle, soltou o cachorro, agasalhou o croquete... É claro que para uma obra inocente, tais termos nunca poderiam ser usados para descrever feitos do protagonista, mas School Days jamais foi uma obra com pudor, inicialmente se fosse totalmente adaptado ele seria um hentai. Moral e pudor não fazem parte do anime, nem em questão de relações amorosas, nem em relação a personalidades...

Há quem diga que o anime não é bom pois os personagens são muito cruéis, basicamente o mau vence no fim. Katsura Kotonoha sofria bullying por ser bonita e inteligente, "porém" no decorrer do anime continuou sofrendo. Ela era humilhada, "porém" no decorrer do enredo passou a ser ainda mais humilhada. As garotas invejosas e cruéis não tiveram seus lados bons e causas de serem más reveladas. O bem não prevaleceu, não houve uma reviravolta do bem no enredo. Isso tudo não faz da obra ruim, certamente sem aquele "pudor" básico, sem senso moral e ético, mas não uma obra ruim. Uma obra de fato bastante original em seu desfecho.

O Terceiro momento de reflexão do texto: Quando uma  Tsundere e uma Dandere (quem sabe Yandere) estão apaixonadas pela mesma pessoa, o que elas fazem? Bom, na maior parte das obras que conheço elas descontam as frustrações nos protagonistas, seja dando um gelo neles, ou os espancando (com humor, é claro). Algumas vezes há confronto entre elas, algo como "concurso de culinária para ver a comida que agrada mais o senpai" ou "uma corrida atlética para ver quem é mais bem preparada fisicamente para ter o senpai" bom, em School Days as garotas abordaram o problema de outra forma, elas transaram com o amado "senpai" e depois se mataram o quanto dava, Sekai até tentou o golpe da barriga, enquanto Kotonoha usou o dinheiro e poder de sua família como armas para agarrar o amado Makoto (que não é senpai, mas parece sem família).

Eu lembro de já ter dito que School Days para inicio de conversa nunca foi muito cheio de moral e pudor
né? A obra só seguiu o caminho mais verídico para o desenrolar de uma bagunça romântica e sentimental que é um harém. Disputas românticas acirradas terminam com a privilegiada narração de Marcelo Rezende ou Datena, não com uma corrida colegial ou competição de cozinha. O fato é que quando um Harém chega ao ponto do protagonista ter envolvimento romântico com mais de uma garota, o final certamente não será bom, é uma enorme fantasia imaginar o Keitaro (Love Hina) em uma pensão cheia de garotas, hora ou outra vendo uma nua e dando umas apalpadas, e seguir a vida sem problemas. Enquanto a maior parte das obras mostram mulheres como objetos de desejo masculino, a altura de suas mãos, School Days foi além, e mostrou exatamente que mulheres não são objetos, e se você é o garanhão que quer todas, vai sim sofrer com algum tipo de punição, mesmo que ela seja você ficar sozinho. School Days foi preciso em mostrar esse ponto que muitas obras esquecem de mostrar (Ou não querem lembrar) as mulheres não são brinquedos e homens não são apáticos a sedução.


Termino o texto deixando minha opinião de que o Harém proposto e mantido até o fim por School Days, onde a moral e ética passaram longe, é muito mais próximo da realidade que o Harém fantasioso e perfeito exposto por grande parte das obras japonesas. School Days certamente não é uma obra única em mostrar harém com desfecho trágico, existem muitos mangás que mostram o caminho trágico desse tema tão comum que é o harém, porém ao chocar mostrando um final onde Kotonoha abre a barriga de Sekai para procurar descobrir se ela está grávida, e finaliza o enredo indo em direção ao pôr do sol acompanhada da cabeça do protagonista Makoto, chocou os desavisados, que até essa altura do enredo ainda estavam esperando a reviravolta do bem sobre o mau. School Days não é tão ruim quanto dizem os fantasmas da internet, é apenas uma obra que é tão surpreendente que choca quem esperava o clima inocente proposto em seu inicio. Quem busca gore normalmente passa longe de obras românticas e melosas, obras onde a comédia romântica é o foco; e em contra posição quem ama obras românticas normalmente gosta de final feliz, os públicos dessa obra foram invertidos, até o fim quem estava assistindo era quem esperava ética, amor, esperança, final feliz, porém a esperança nunca nasceu em School Days, a humilhação não foi vingada e tudo isso não faz do anime ruim, ela apenas contemplou de imediato o público errado com sua proposta inocente, desenvolvimento cruel e final trágico.

Pessoal, esse foi o artigo da vez, espero que tenham gostado mesmo que não tenham gostado do anime. E aproveito para deixar ainda mais claro nesse final uma mensagem que tentei passar o texto todo: Ética e Moral são de fato importantes demais na vida, mas em uma obra fictícia a falta delas não é errado, é apenas uma opção do autor, as vezes pode surpreender a um desavisado, mas ainda é só uma opção, em uma obra fictícia é sim permitido que o mau vença.